Retenção ou chumbo? Problema escolar ou social?

Desta vez vou debruçar-me sobre os temas do Ensino e da Educação. Parecem mas não são de todo a mesma coisa. Ora vejamos: nesta noticia, David Justino, que eu aprendi a respeitar enquanto elemento deste Executivo, é agora Presidente do Conselho Nacional da Educação (CNE) e vem defender algumas medidas que se forem vistas só do ponto de vista pedagógico, até podem fazer algum sentido.

 No entanto, a pedagogia de pouco vale quando o problema que enfrentamos é social e estrutural. Apesar de respeitar as ideias de David Justino, sou obrigada a afirmar que neste contexto tem uma visão um pouco romântica do panorama do ensino em Portugal. Mas vamos por partes: Educação não é só o que aprendemos na Escola, são todos os conceitos, valores, princípios, moral e tudo o que compõe um Ser Humano completo que são testadas e alargadas através do contacto com os outros em contexto social, nomeadamente na Escola. Já o Ensino, englobará todos os ensinamentos que apreendemos em contexto escolar. Acho importante começar esta reflexão por fazer a distinção entre estes conceitos.
Posto isto, faz-me um pouco de confusão que se insista em desvalorizar o “chumbo” mascarando-o de “retenção“. Há momentos no percurso escolar em que o aluno pode ficar retido – quando por exemplo um aluno não obtém sucesso ao final do ano porque por algum motivo relevante não conseguiu assistir a todo o ano lectivo (doença, transferência, etc) ao passo que o chumbo se aplica quando o aluno não consegue ser bem-sucedido a pelo menos 3 disciplinas no final do ano lectivo tendo tido todas as condições para assistir à totalidade das aulas. Não é portanto, nem deve ser, igual um chumbo ou uma retenção.
No meu tempo de estudante, e não vai assim há tantos anos, os alunos tinham vergonha de chumbar. Ter um chumbo na “caderneta” nunca seria um motivo de orgulho ou regozijo nem para o próprio aluno e muito menos para a sua família ou amigos. Para os pais, dizer aos familiares ou amigos que o/a filho/a tinham chumbado o ano era algo de inaceitável.
É por demais evidente que é urgente investigar e avaliar o porquê de uma taxa de chumbos – sim, eu vou continuar a usar esta designação porque chumbei um ano e lidar com isso não me traumatizou de forma nenhuma – e tentar contraria-la. No entanto, também temos que ter a capacidade de admitir que nem todas as gerações podem apresentar a mesma taxa de sucesso. Muitas vezes a “culpa” não é dos curricula ou dos professores mas daquele grupo especifico de jovens que por alguma razão pode não apresentar a mesma habilidade para o estudo que apresentaram os anteriores ou apresentarão os seguintes. Ignorá-lo não ajudara a resolver este flagelo.
Segundo a reportagem, estes números reportam-se ao 4º e ao 6º ciclo ou no meu tempo, à 4a classe e ao 2º ano do ciclo, julgo eu. Ora porquê nesta fase? Deveriam manter-se os exames?
A 4a classe é um ano de consolidação dos conhecimentos mas deve ser também um ano de preparação, os alunos passam de 4 disciplinas para 10 – se não me falha a memoria – e não só a carga horária é mais exigente, como têm mais responsabilidades. Deve portanto haver alguma atenção a esse facto. Eu pessoalmente concordo com os exames, principalmente quando o contexto em aula é mais permissivo. Os professores não podem castigar, não podem mandar uma bateria de trabalhos para casa sob pena de haver uma revolução das Associações de Pais e portanto torna-se necessário ser mais exigente na avaliação de conhecimentos no final do ciclo de estudos.
Se eu acho mais importante as crianças terem Educação Cívica do que Inglês na 4a classe? Acho sim senhora. Para mim, é mais importante que uma criança (sim, porque na 4a classe ainda são crianças) tenha o mínimo de princípios cívicos do que seja capaz de ouvir os desenhos animados sem legendas. O Inglês é uma língua de aprendizagem fácil e a maioria dos Pais até opta por Institutos ou outras soluções. Pode portanto a Escola dedicar-se a outras matérias até porque como não somos todos iguais, temos que admitir que hajam agregados familiares que não disponham das mesmas ferramentas e não consigam dotar as suas crianças desses conhecimentos o que a médio prazo se vai reflectir socialmente.
Gostei da ideia de se encontrarem os melhores e os mais especializados, desde que isso não signifique os que praticam maior demagogia. É mais eficaz, a meu ver, que se aumentem as horas-extra ou de estudo em vez de “reter” os alunos ou passa-los administrativamente “porque chumbar é traumático”. O que é traumático é termos 2 gerações de jovens que não sabem elaborar um raciocino, justificar uma ideia ou construir um texto com principio, meio e fim.
No artigo tenta-se não colar ” a cultura do facilitismo” à da retenção mas isso é um facto. As nossas crianças têm que perceber que só conseguem ser jovens com capacidade de escolha e adultos bem sucedidos se se esforçarem e não optarem pelos caminhos mais fáceis, nomeadamente os da desistência e entenderem que serem bem-sucedidos na Escola deve ser motivo de orgulho e não um castigo pelas horas que perderam de brincadeira.
Quanto ao abandono escolar, torna-se urgente perceber se o agregado familiar exerce alguma pressão nesse sentido – visto encontrar-mo-nos em contexto de crise e os rendimentos serem menores sendo difícil fazer face às despesas ou se reina a ideia generalizada de que ” a Escola não nos ensina nada e eu não preciso de saber nada do que la se transmite.”
Crianças que gostam de ler e de aprender vão tornar-se jovens mais curiosos e mais atentos e adultos mais completos e isso deve ser incutido pela família desde tenra idade.
E isto sem qualquer demagogia pois uma das minhas máximas é a de que: “O Saber não ocupa lugar.”
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